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Relatório Evento na UNIFESP - 17 e 19/03/2009
The certainty that a risk is totally
eradicated will most probably
trigger behaviours that will
reintroduce the threat.
(Jean Pariès)
Esta é uma apreciação acerca de evento em que afortunadamente pude participar junto com o
colega CTA Gilson Fonseca.
Avalio muito positivamente os dias em que o tráfego aéreo foi alvo de uma apreensão acadêmica na UNIFESP, em especial no MBA de coordenação do Professor Marco Tulio Mello. Foi muito importante conhecer a nova doutrina institucional da FAB acerca de responder "às mentiras da Imprensa" sobre o Provimento de Serviços, a implantação da infraestrutura aeronáutica de apoio ao Sistema, a capacitação e atualização de novos e atuais trabalhadores, respectivamente, e a abrangencia territorial do SISCEAB. Além disso, foi muito importante conhecer como a integração militar-civil na prestação dos serviços se dá com verdadeira transparencia aos vários segmentos de clientes nacionais e estrangeiros que usam o Espaço Aéreo Brasileiro.
Creio, apenas, que os próprios controladores de tráfego aéreo -- na verdade só havia dois controladores efetivos, um da Defesa Aérea, portanto serviço eminentemente militar, e um da INFRAERO -- e suas experiencias acumuladas, observando o juramento da disciplina e a hierarquia, poderiam falar por si próprios, no tocante a realidade vivenciada, guardando a parte de Administração e Liderança a quem exerce a Função de Comando na FAB, os oficiais aviadores, no caso o Cel. Av. Paulo Ferraz, Diretor do ICEA.
A apreensão civil da Comunidade Aeronáutica representada pelo Cmte. Francisco e pela Déby, elos do Safety das duas maiores Cias Aéreas do país, acerca do chamado Fator Humano, ficou patente. Minha pequena e engasgada apresentação, também neste mesmo viés, utilizando o Capítulo 17 da 1ª Edição do Doc 9859 da OACI sobre SMS (SGSO) apenas procurou reforçar este ponto, embora não tenhamos combinado nada entre nós. Não existe sequer um enlace das Associações de Pilotos e de Controladores que sugerisse um trabalho mais aproximado, mesmo sendo estes os únicos interlocutores quando no Espaço Aéreo ou no chamado Lado Ar dos aeroportos e deveriam, por isso mesmo, ser muito mais próximos uns dos outros. Nós, palestrantes, apenas nos encontramos aleatoriamente nos eventos e mais nada, mas o assunto é invariavelmente o mesmo: o conhecimento psicobiológico do Fator Humano na aviação e sua influencia na Prevençao de Acidentes Aeronáuticos. Não pareceu, mas estava lá, nas palestras, o tempo todo. Parece até nome para uma dissertação acadêmica em qualquer nível de profundidade.
A metáfora do "viciado e seu gerenciamento de risco para evitar a overdose" revela, ou deveria revelar, o que se está mais amplamente conhecido nas organizações sociais como "drift into failure" e o "normal accident", este um homônimo do livro do sociólogo (!!!) Charles Perrow. O tema é: não obstante o controle quase paranóico das doses diárias da droga utilizada (em geral a injetável, mas o pessoal do UNIAD pode dar melhores informações), a falta de tolerancia do organismo humano àquela dosagem "normal" e de limite aceitável sem riscos no início, leva à ruptura do sistema orgânico. Noites mal dormidas, alimentação deficiente, tensão constante para adquirir e usar a droga em segurança, ter poder aquisitivo para sustentar o vício, administrar as reações emocionais (temperamento, distanciamento ou presença, etc) e físicas (olhos vermelhos, fotossensibilidade aumentada, fome etc) perto de familiares e colegas de trabalho, além de outras, levam à debilitação do corpo, consequentemente afetando a mente: "corpo insano, mente insana", parafraseando o ditado latino. Se se consegue, a despeito de tudo isso, manter a aparencia física e dar-lhe um certo ar de normalidade e segurança de que tudo está bem, por outro lado, sabemos que há uma corrosão interna prestes a colapsar todo este sistema orgânico.
Embora tenha apenas um leve conhecimento da clientela deste MBA do Prof. Marco Tulio, creio ter ficado aparente que um importante objetivo é o de como aplicar no dia a dia dos profissionais da Saúde o conhecimento do psicobiológico humano e a análise deste psicobiológico submetido a variados ambientes, seja de trabalho, de prática de esporte ou mesmo de lazer, escolhendo-se protocolos de abordagem, métricas e quais cruzamentos dos dados coletados serão privilegiados neste sentido. Pois bem, esta é uma deficiencia que envolve o que conhecemos como Controle de Tráfego Aéreo brasileiro e suas atividades interrelacionadas: comunicações aeronáuticas, meteorologia aeronáutica, informações aeronáuticas, controle de tráfego aéreo (a DA também, por causa da integração, mas como é algo essencialmente militar, cabe sistemicamente ao IPA - Instituto de Psicologia da Aeronáutica, alinhado com o ICAF - Instituto de Ciencias da Atividade Física - do antigo DAC) e manutenção de infraestrutura aeronáutica.
Penso que esta brecha de participação dos controladores, proporcionada de início a partir de um vínculo de amizade particular do organizador do Curso dentro da esfera militar, mas também de curiosidade do assunto pela sociedade civil, na qual o prof. Marco Tulio é um indivíduo altamente representativo no tocante a essa estranheza em relação à nossa atividade (não regulamentada), foi fundamental para que a questão que todos se fazem, declarada ou intuitivamente ao comprar uma passagem aérea, "É seguro voar no Brasil?" possa COMEÇAR a ser respondida de maneira científica, séria, sem os arroubos emocionais do Amor à Patria e Cumprimento de uma Missão que sempre é evocado pela doutrina da Instituição que administra constitucionalmente o assunto, porém com função subsidiária. Podemos COMEÇAR a nos conhecer como Fatores Humanos ou Fatores Psicobiológicos dentro do pedaço que nos cabe no Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro (SISCEAB). Fora disso, tudo não passa de filminho de propaganda à lá Goebbels, infelizmente.
Alinhamo-nos com o Prof. Marco Tulio Mello na defesa da importancia deste MBA com este excerto significativo: "Tem também como objetivo treinar o aluno a desenvolver atitude crítica acerca dos instrumentos e métodos utilizados para avaliar o perfil do trabalhador por turno; fornecendo fundamentação teórica necessária para um diagnóstico, preparando-o para atuação profissional, individualmente ou em equipe multidisciplinar. Será dada ênfase na necessidade de uma atuação fundamentada em conduta científica porém ética, na relação com o trabalhador por turno”
Bemildo A. Ferreira Filho
Secretário Executivo – ACTAGRU
FEBRACTA/IFATCA liason
